Guia para start-ups em São Francisco

Guia para start-ups em São Francisco

Empreendedores, fundadores de start-ups e aspirantes a “techies” de todo o mundo estão a dirigir-se em massa para São Francisco. Todos querem saber a resposta a uma questão premente: como tirar o máximo partido de uma imersão em São Francisco? No final de fevereiro, representantes de dois países, a Austrália e a Holanda, reuniram-se no The Vault, uma incubadora internacional, e partilharam os seus insights/conhecimento num evento que esgotou.

Susanna Camp, Jonathan Littman 

1.º: Conectar-se com os nativos
Faça contactos, tanto com os locais como com os recém-chegados do seu país ou de nações vizinhas. Os franceses e os suíços destacam-se no networking entre start-ups em São Francisco, com espaços físicos e programação abrangente. Os franceses têm dois locais: o PARISOMA e o French Tech Hub. Os suíços têm a excelente incubadora swissnex, fornecendo um centro para start-ups, corporate, estudantes e artistas helvéticos num espaço premium all-in-one ao lado do Exploratorium, na orla marítima. E depois há a Nordic Innovation House em Palo Alto, um “espaço de adaptação suave” e uma “comunidade de pares, parceiros, investidores e prestadores de serviços” para as start-ups nórdicas (da Finlândia à Suécia, passando pela Dinamarca, a Islândia e a Noruega) fazerem negócios nos EUA. Poucos outros países europeus ou asiáticos têm esta abordagem de alto nível em termos de infraestrutura e de investimento. Este elevar da fasquia significa que, para os australianos, holandeses e outros que fazem a peregrinação a São Francisco, é crucial agitar as águas. É fundamental procurar outros meios de fazer networking, patrocinar e participar em eventos, bem como entrar numa incubadora. Conectar significa também desenvolver um bom trabalho de relações públicas no local, e uma missão e foco coerentes. Dado que os holandeses foram o segundo maior contingente de start-ups (a seguir aos franceses) na CES (a maior feira de tecnologia do mundo, que decorreu em janeiro), a pressão está a aumentar. Os países estão a competir pela atenção, pelo que podemos esperar pela abertura de mais hubs estrangeiros em São Francisco e em Silicon Valley.  

2.º: Trazer um guia
Precisa de ter um plano ou mapa de abordagem. Os holandeses têm um. Os australianos também. E que estão carimbados com a marca especializada dos primeiros expatriados que chegaram a Silicon Valley. Os holandeses apelidam o seu guia de o Silicon Valley Playbook, disponível online, e que ajuda os visitantes a navegar por entre as diferenças culturais, a aperfeiçoar o pitch para os investidores de risco (venture capitalists) americanos, a vestirem-se para o tempo instável da Bay Area (ter camadas de roupa ajuda) e, de um modo geral, a adaptarem-se ao ambiente tecnológico em rápida mudança. Maaike Doyer, designer de estratégia e CFO da Business Models (empresa internacional de origem holandesa que ajuda os clientes a inovar, da geração de ideias à validação, passando pela execução), participou na criação do Playbook: “uma colaboração realmente divertida” que ajuda as empresas a adquirir a “mentalidade, as ferramentas e competências para se prepararem para obter escala”, declarou no evento no The Vault. Ao lado de Maaike esteve a também holandesa Karin Louzada, conselheira sénior em inovação no consulado geral da Holanda.
Depois há a australiana Founders Network, um serviço de apoio às start-ups dos Antípodas que proporciona uma constelação nacional de Landing Pads físicos; aqui as start-ups prontas para o mercado podem obter uma residência de 90 dias num espaço de co-trabalho local que as ajuda a crescer, facilitando o desenvolvimento de negócios, a apresentação a redes de investidores e de mentores, e proporcionando oportunidades de parcerias estratégicas. Frances van Ruth, da Comissão Australiana de Comércio e Investimento em São Francisco e especialista no ecossistema local, deu crédito aos pioneiros: “fundadores que vieram antes, se estabeleceram e agora têm um desejo real de ajudar novos fundadores”. Dois desses pioneiros estavam no evento: David Cannington, co-fundador e vice-presidente sénior de vendas e marketing da Nuheara, e Nick Ellsmore, co-fundador e CEO da Security Colony.   

3.º: Comprometer-se com a Califórnia
Os palestrantes conversaram sobre compromisso. Fazer turismo/uma visita superficial a Silicon Valley, por exemplo, não oferece muito mais que uma consciência simplista da região ou a oportunidade de expandir o perfil nas redes sociais. Pim Tuyls, fundador e CEO da Intrinsic ID, falou sobre como há um ano tentou montar a base em Leuven, na Holanda, e ter a sua nova residência em Silicon Valley, e depois percebeu que não conseguia ganhar tração em nenhuma das cidades. Até assumir o compromisso oficial de viver em São Francisco a tempo inteiro, “nunca vai pertencer à Califórnia, não vai pertencer à comunidade, e não pertence ao ecossistema”, declarou. “Uma vez cá, isso muda”. Pim Tuyls assumiu o compromisso, e a sua empresa de autenticação digital está agora baseada em Sunnyvale, e recebeu financiamento. Esta história não é nova. O finlandês Risto Lähdesmäki, fundador e CEO da empresa de design UX Idean, também dividiu os seus dias entre a Bay Area e a Europa durante um ano. Mas optou por levar a coisa para outro nível. Passou tanto tempo no Sheraton em Palo Alto que o conheciam pelo primeiro nome. E os clientes pensavam que ele morava em Silicon Valley – perceção que lhe permitiu fechar grandes negócios locais. Risto acabou por mudar a sede da empresa de Helsínquia para Palo Alto. E funcionou: o ano passado a empresa foi adquirida pela gigante francesa de consultoria Capgemini. 

4.º: Aprender uns com os outros
Aprender com outros empreendedores estrangeiros é fundamental. Os europeus organizam uma conferência anual, de uma semana e massiva, dedicada a start-ups e a scale-ups (empresas que registaram o crescimento mínimo de 20% ao ano na facturação durante três anos seguidos). A Startup Europe Comes to Silicon Valley (SEC2SV) reúne os fundadores, empresas, investidores e legisladores mais relevantes do ecossistema empresarial da União Europeia (UE) e de Silicon Valley em eventos e workshops, estabelecendo relacionamentos significativos e de longo prazo. Em 2017, 600 pessoas de uma ampla gama de países da UE estiveram num fórum ideal para aprender o que funciona e o que não funciona. E há inúmeros eventos – no French Tech Hub, na swissnex, ou os Mashups do The Vault – projetados para reunir dois países incomuns na Bay Area.
Não é por acaso que as primeiras ondas de empreendedores que chegaram a São Francisco durante a Corrida ao Ouro vieram da Europa, da China e da América Latina. Eles tiveram o impulso e a ambição, e viram o potencial. O boom de hoje não é menos importante para a região e para os negócios globais. A promessa é imensa: a oportunidade de expandir no enorme mercado dos EUA. “Pensar grande ou pensar pequeno consome a mesma quantidade de energia”, afirmou Pim Tuyls sobre as oportunidades para escalar nos EUA. “É a mesma quantidade de energia, mas um mindset diferente”, concluiu.

  

15-03-2018


Portal da Liderança


Nota: Tradução do artigo de Susanna Camp e Jonathan Littman, originalmente publicado no hub de inovação SmartUp.life, que reúne textos sobre empreendedorismo e inovação, incluindo este sobre Lisboa.