Instrumento do diabo? Brinquedo para ricos? – A resistência à tecnologia

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Instrumento do diabo? Brinquedo para ricos? – A resistência à tecnologia

São muitos os motivos para a oposição às novas tecnologias. Calestous Juma, professor em Harvard, declara no seu mais recente livro que temos uma longa história de resistência a avanços tecnológicos.

E se recebesse um convite via o instrumento do diabo para uma refeição de comida embalsamada, e depois tomar a bebida de satanás? Desconstruindo: se o convidassem por telefone para uma refeição de congelados, seguida de um café? A resistência à inovação não é de hoje, como aponta o professor e investigador Calestous Juma.

O trabalho dos inovadores e empreendedores expõe-nos ao “ostracismo social e à prevenção física ou ao ataque direto”, segundo o economista austríaco Joseph Schumpeter. O também cientista político escreveu este comentário em 1912. Schumpeter popularizou o conceito “destruição criativa” (do sociólogo alemão Werner Sombart), i.e., o efeito da inovação na economia de mercado. O novo destrói o velho, e os empreendedores são os que impulsionam um crescimento económico sustentável a longo prazo.

São muitos os motivos para a oposição às novas tecnologias. O professor universitário Calestous Juma declara no seu livro, “Innovation and Its Enemies: Why People Resist New Technologies” (A Inovação e os Seus Inimigos: Porque as Pessoas Resistem às Novas Tecnologias), que temos uma longa história de resistência a avanços tecnológicos. E que é à História que devemos recorrer para entender porque tal acontece, defende o docente de Prática de Desenvolvimento Internacional na Universidade de Harvard.

Durante 16 anos Calestous Juma estudou seis séculos de controvérsias originadas pela inovação, apresentando as conclusões nesta obra. “Aqueles que não gostavam de um produto tentavam demonizá-lo, atribuindo-lhe nomes pouco atraentes”, ou avançavam com campanhas para desprestigiar uma invenção, diz o investigador de origem queniana. E se recebesse um convite via o instrumento do diabo para uma refeição de comida embalsamada e depois tomar a bebida de satanás? Desconstruindo: se o convidassem por telefone para uma refeição de congelados, seguida de um café? Hoje, os alimentos transgénicos são apelidados, por exemplo, de “frankencomida”, ou comida de Frankenstein. Os motivos de resistência podem ser económicos, religiosos, intelectuais, psicológicos… 

À medida que a tecnologia migra entre países e continentes, as implicações sociais também mudam. O professor de Harvard dá o exemplo da Motorola: quando lançou os primeiros telemóveis nos EUA, em 1983, o mercado considerou-os brinquedos para os ricos – eram dispendiosos, além de que eram pesados, mediam cerca de 30 centímetros, demoravam 10 horas a carregar e tinham capacidade para apenas 30 minutos de conversação. Já quando chegaram a África, os aparelhos foram reinventados por engenheiros e usados em novos modelos de negócio criados por empreendedores no Quénia, que foi pioneiro na transferência de dinheiro móvel – apelidado de “transferência” em vez de “banking” porque a banca não deixava as operadoras de telecomunicações deter dinheiro. Agora os telemóveis são mais que uma ferramenta de comunicação: servem como bancos, escolas, clínicas e veículos para disseminar a transparência e a democracia. “Aumentam a nossa humanidade de formas que não poderiam ter sido previstas no início da década de 1980”, diz Calestous Juma, acrescentando que “vivemos tempos emocionantes em que a diversidade tecnológica e a criatividade proporcionam oportunidades ilimitadas para expandir o potencial humano de todos, em vez de apenas algumas secções exclusivas da sociedade”.

No livro “Inovação e os Seus Inimigos…”, o docente mostra que a resistência a novas tecnologias piora quando as pessoas percebem que os benefícios destas só vão reverter a favor de uma pequena parte da sociedade, enquanto os riscos são generalizados. É por isso que as tecnologias promovidas por grandes empresas enfrentam muitas vezes uma forte oposição por parte do público. Da mesma forma, as novas tecnologias têm grande resistência quando se percebe que os riscos são suscetíveis de ser sentidos a curto prazo e os benefícios só serão acumulados a longo prazo. Pelo que declarar a um público cético que as novas tecnologias vão beneficiar as gerações futuras não as protege da ira da atual geração.

Qual é o caminho a seguir? A resposta pode estar no conceito “empreendedorismo social”, demasiado utilizado, considera Calestous Juma, que afirma que é necessário trazer o “social” de volta para o “empreendedorismo”. Ou seja, explorar novas formas em que as companhias podem ser vistas como estando a contribuir para o bem comum. O facto de as empresas usarem as novas tecnologias para melhorar a sua competitividade torna difícil para o público separar a tecnologia da sua utilização.

O destino das novas tecnologias continuará assim a ser determinado pelo equilíbrio de poder na sociedade. Outro exemplo dado pelo autor: durante quase 400 anos os governantes otomanos opuseram-se à impressão do Corão porque iria prejudicar o papel dos líderes religiosos como fontes de códigos culturais. Mas quando se aperceberam de que a palavra impressa reforçava o seu poder, foram, lentamente, contra as fatwas anteriores que proibiam a impressão do Corão… Nesta obra o investigador dá vários exemplos em que a aceitação de novas tecnologias depende de se reforçam ou enfraquecem as práticas incumbentes. E usa as lições do passado para contextualizar debates contemporâneos em torno de tecnologias como a inteligência artificial, a aprendizagem online, a impressão em 3D, edição de genes, robótica, drones ou energia renovável. 

As novas tecnologias são essenciais para promover o crescimento económico, a satisfação das necessidades humanas e proteger o ambiente. As tecnologias de energia limpa, como as células solares fotovoltaicas (painéis) e as turbinas eólicas, por exemplo, são fundamentais para reduzir a emissão de dióxido de carbono e lidar com os desafios das mudanças climáticas. Mas a sua adoção é muitas vezes bloqueada pelas indústrias estabelecidas e interesses menos claros. Além de que hoje o ritmo de mudança é mais acelerado que a capacidade de adaptação da sociedade. Daí que Calestous Juma tema que as consequências das novas tecnologias sejam mais dramáticas do que até agora. O debate e a oposição vão aumentar, “a ponto de até as que são benéficas poderem vir a ser sufocadas”, alerta o investigador, para quem os criadores têm a responsabilidade de trabalhar com a sociedade para evitar que tal aconteça. Isto porque, “quando a comunidade tem a oportunidade de participar no processo de tomada de decisões, não recusa”. Outra questão é o impacto das tecnologias ser mundial, “por isso precisamos de um diálogo global”.

08-07-2016


Armanda Alexandre/Portal da Liderança

Nota: Artigo realizado com base em depoimentos de Calestous Juma, bem como num texto produzido pelo autor para a Global Agenda do Fórum Económico Mundial